CASMURRO
Luis Lopes de Souza
Hoje a inquietude me perturba
numa ressaca de incertezas e medo...
- São meus ranços de casmurro certamente!
Vozes lisonjeiras não insistam...
Sorrisos
transfigurados desistam...
Deixem que os tormentos me judiem sem dó!
Hoje permitam os meus silêncios
deixem este velho ficar só!
Não quero o agudo dos relinchos desses potros
pois os ventos repontaram os meus
fletes
pra morrerem sofrenados pelos outros.
... que nesses campos lerdos e sonolentos
só vaguem sombras em lentos
movimentos.
... que se calem guitarreios
e milongas
e as payadas
sejam breves, sem delongas!
Que não passem em meu rancho
gemidos gastos de cambotas
nem aboios entediosos
de tropeiros...
Que o vento toque de leve minha melena
sem carícia, nem ternura, nem pena!
Que o sol
num céu pálido e distante
descambe nas coxilhas de outros pagos
frio e dúbio como o meu semblante...
Hoje não quero matraqueares pelas casas
nem
“retrechos”
estridentes de cigarras...
Não quero reboliços, nem mugidos,
nem gorjeios, alaridos...
Nada!!
Quero apenas expurgar as minhas cismas
e as magoas quase vagas que me
seguem
nesse rumo que se estende tão a esmo...
vou tentar entender os meus rancores
no refúgio solitário de mim mesmo!
Deixem que os fantasmas que carrego
se apoderem desta alma sem razão,
que armem as diabólicas carrancas
e me assombrem sem piedade nem
perdão!
Que me cerquem, abram chagas com suas farpas...
se embriaguem com o rubro das sangrias...
me punam, me judiem, me castiguem!
Pois entrei dependente e voluntário,
na masmorra que engole meus remorsos
pra nutrir meu inferno imaginário!
Deixem que anomalias macabras
apavorem os demônios do meu eu,
descarreguem toda a ira assustadora
no momento nauseabundo em que me
encontro.
Apedrejem minha dormente matéria
hoje muda, desarmada e sem socorro,
que contrita penitencia a vaidade
na azeda sensação da miséria!
Deixem que o meu ego vagabundo
se extravie com urgência em
tropelias
no astral indomável do meu mundo...
Deixem que eu arraste a minha cruz
nos escolhos cismarentos de um
profano,
e decrete a minha própria sentença
na reclusa penitência dos insanos...
Deixem que eu digira os meus pecados
pois caminho com meus deuses pelo
avesso,
tragando na taça dos meus ascos
cada gota do veneno que mereço...
Verdade!
Hoje a inquietude me perturba
numa ressaca de incerteza e medo...
por isso só quero a inércia isolada
pra exorcizar meus pesares e
segredos...
Hoje meu coração pulsa vacilante:
Não esta alegre nem triste...
Não esta amargo nem doce..
- São meus ranços de casmurro certamente!
Vozes lisonjeiras não
insistam...
Sorrisos transfigurados
desistam...
Deixem que os tormentos me judiem sem dó!
Hoje permitam os meus silêncios
deixem este velho ficar só!
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CASMURRO: 1- aquele que é teimoso, implicante, cabeçudo. 2 – ensimesmado, sorumbático, triste. 3 – homem calado em devaneios consigo mesmo.